SERRA: Cartografia social mostra riscos e potencialidade
Por JA -8 de agosto de 2026
Recentemente foi publicado o estudo “Cartografia social e extensão universitária na Serra do Japi: caminhos participativos na educação ambiental”, resultado de projeto de extensão universitária para desenvolver e fomentar o reconhecimento e valorização naturais e culturais da Serra e entorno. A pesquisa foi feita por Salvador Carpi Junior e Paulo Roberto da Silva Rufino, ambos da Unicamp. Eles elaboraram um Mapeamento Ambiental Participativo, ferramenta de empoderamento comunitário para valorizar os aspectos naturais e culturais locais. Através de oficina com a comunidade, foram elaborados mapas e discutidos os riscos e potencialidades do território. A iniciativa fortaleceu o vínculo entre moradores, universidade e órgãos públicos. O Jundiaí Agora entrevistou Salvador(na foto abaixo, à direita):
Qual a sua formação e a do outro pesquisador?
Eu sou geógrafo e trabalho como profissional de apoio à pesquisa e ensino no Laboratório de Geomorfologia e Análise Ambiental do Departamento de Geografia. Também sou professor colaborador no Instituto de Geociências da Unicamp. Paulo é graduado em bacharelado e licenciatura em Geografia pela Unicamp, e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Geografia pela mesma universidade, além de pesquisador no Laboratório de Epistemologia e História da Geografia (LEHG), na área de análise ambiental e dinâmica territorial.

Quando foi feito este levantamento?
O desenvolvimento do projeto se iniciou no final de janeiro de 2023. Em seguida foi estabelecido contato com a Fundação Serra do Japi. Assim, a equipe se deslocou no final de fevereiro daquele ano até a sede da Fundação, no bairro Santa Clara, para uma reunião de planejamento com as instituições envolvidas. Foi definida a realização de uma única oficina de mapeamento participativo, na sede da Fundação Serra do Japi. Ali também foi marcado o evento de apresentação de resultados. Nos meses seguintes foi efetuada a preparação de base cartográfica específica com a rede viária, bairros, hidrografia, curvas de nível, limites da reserva biológica, e demais referências de localização, para a realização da oficina de mapeamento realizada no dia 13 de maio de 2023. Por último, em junho e julho de 2023 ocorreu a apresentação de resultados para os envolvidos no projeto, na Fundação (foto abaixo).
Mas o estudo foi publicado recentemente, correto?

O que é Mapeamento Ambiental Participativo?
O mapeamento em si é um tipo de linguagem. No nosso caso, uma linguagem que se preocupa com questões ambientais, ou seja, uma relação entre a natureza e sociedade, de forma participativa. Como existem diversos métodos de mapeamento e de elaboração de cartografias sociais e populares, o método participativo que realizamos é voltado à identificação de situações de riscos ambientais e nos elementos que caracterizam a preservação e recuperação da Serra do Japi, considerando as relações locais e regionais.
Por que decidiram fazê-lo?
Como o tombamento se deu por uma forte iniciativa de um importante geógrafo e professor na USP, o professor Aziz Ab’Saber, é comum estudarmos e termos a Serra do Japi como um importante elemento da natureza brasileira, sobretudo no estado de São Paulo. Nesses estudos e pesquisa, damos uma forte ênfase no conhecimento e valorização do patrimônio natural e cultural contido na Serra do Japi e nos riscos ambientais percebidos na área. Portanto, já existia um interesse em trabalhar com a Serra do Japi em algum projeto, que foi ratificado após percebermos que a Fundação Serra do Japi, que já tinha sido instituição parceira em outros trabalhos anteriores, também tinha interesse nesse tipo de trabalho.
Quais os aspectos naturais e culturais da Serra que devem ser reconhecidos?
A Serra do Japi tem um potencial hídrico imenso, sendo quase que uma “caixa d´água” natural de Jundiaí e cidades vizinhas. Tem enorme biodiversidade de fauna e flora, algo que impacta positivamente na qualidade de vida e na paisagem, sendo extremamente bela e um cartão postal natural. A área tem sido reconhecida pela população local e de entorno desde o século passado como uma área propícia para o contato com a natureza, principalmente por meio de caminhadas e pedaladas, contato com as plantas, animais, cursos d’água e sobretudo as cachoeiras.

A sabedoria popular coincide com o conhecimento científico em alguns aspectos?
Sim, coincide em vários aspectos, sendo citados alguns como a importância da Serra do Japi na observação de sua enorme biodiversidade, de seu papel na presença no abrigo de inúmeras nascentes que abastecem os rios da região, e na manutenção da qualidade do ar; na observação e identificação de incêndios recorrentes na mata e nos arredores e na preocupação da maioria dos atores sociais locais e regionais sobre a expansão imobiliária nas proximidades da Serra.
Quem participou daquela oficina?
Cerca de 20 pessoas estiveram presentes. Eram moradores da Serra, funcionários da Fundação e de outros órgãos públicos, guias de turismo, professores, estudantes e pesquisadores. Apesar do número ter sido relativamente pequeno, os participantes representaram muito bem a diversidade de atores sociais locais.
Quais riscos e potencialidades foram discutidos?
Foram identificados ou mapeados uma enorme quantidade de riscos e potencialidades. Todos foram agrupados em seis grupos: animais e vegetação; uso e ocupação do solo; poluição do ar; resíduos e contaminações; água e vulnerabilidade social.

Quais as principais preocupações dos moradores em relação à Serra?
A maior parte dos moradores está preocupada com a redução de nascentes e da água superficial e subterrânea, descarte de resíduos no entorno da Unidade de Conservação, impactos das atividades de lazer na área, ocorrência de incêndios, avanço de loteamentos e edificações no entorno da reserva biológica, ameaça de redução e extinção de espécies e animas e vegetais(imagem acima).
Deste estudo foram criadas ferramentas cartográficas. O que são e como consultá-los?
As ferramentas cartográficas foram produzidas através do Mapa Ambiental Participativo da Serra do Japi. Foram feitas no formato imagem para consulta das informações levantadas e mapeadas. Também há um mapa em formato dinâmico e interativo, para consulta, atualização e correção de informações mapeadas, por meio do aplicativo Google My Maps e quadros explicativos, para consulta das informações que foram levantadas e organizadas.
Como o Poder Público pode usar estes dados?
Esses dados podem ser utilizados para identificar situações de risco ambiental e promover ações de prevenção e redução de seus efeitos danosos. Pode também utilizar para conhecer melhor as ações positivas em relação ao ambiente local promovidas pelas entidades e moradores locais, incorporando ideias e novas perspectivas de atuação.